Arquivo de Junho de 2009

A Importância da Fotografia - 2.0

Outro dia ouvi a seguinte pergunta: “Por que você é fotógrafo?” Respondi com uma frase que de tão presunçosa pareceu a mim mesmo um pouco absurda: “Por que é a profissão mais importante do mundo”. Parei para pensar um pouco no que havia dito e concluí que não estava tão errado e que de fato se não era a mais importante, com certeza estaria no “top 10” das atividades fundamentais para a existência da humanidade.

A fotografia é um meio de expressão que pode ser usada de variadas formas, no jornalismo comunica as notícias, nas revistas de fofoca mostra a vida de celebridades, nos anúncios faz todo o trabalho de encantamento para a venda e ainda a vemos em relatórios, sites, palestras, livros e tantos outros meios com finalidades diversas. 

A televisão e o cinema só existem graças aos avanços técnicos que deram origem à fotografia, a web 2.0 só é tão interessante pois temos vídeos e fotos bonitas e coloridas, se fosse apenas texto eu queria ver tanta gente conectada esse tempo todo.
Indo mais longe, nós só temos idéia de como fomos quando crianças pois vimos fotos, e também só sabemos como eram nossos pais mais jovens pelo mesmo motivo. Nossa história foi contada por fotos, é nossa memória.

Imagine agora uma vida sem fotografia, sem registros de criança nem as fotos que denunciaram o horror das guerras ou a fome na África. Os anúncios seriam como os velhos cartazes feitos por Lautrec. Televisão e internet? Esqueça, elas não teriam nascido.

Podem levantar a bandeira e dizer que haveria ilustração, tipografia e tudo mais, de fato. Mas o diferencial da fotografia, quando comparada a outras formas de construção de imagem é o fato dela ser realista por natureza, as coisas precisam existir na frente da câmera para serem retratadas, interpretamos uma fotografia como algo real, se o produto é bonito na foto, assim nos parece a realidade, se uma empresa parece bem organizada e produtiva na foto, assim é a impressão que teremos dela.

Mas mesmo com toda a importância, seja como documento histórico ou como meio de comunicação social que independe do verbo, a fotografia é muito maltratada. Não há cultura visual em nosso país, não entendemos que uma boa fotografia vale mais do que milhões de palavras.

Somos analfabetos fotográficos, achamos que foto serve apenas para enfeitar um site, um catálogo ou a sala de estar. Nunca vi um manual de identidade visual que contemplasse orientações sobre o estilo fotográfico a ser usado por uma empresa, preocupam-se com o logotipo que ocupará menos de 10% da página e esquecem de pensar no que irão dizer com aquela foto que ocupará os outros 90%.

No final a fotografia é como o ar em nossos pulmões, é tão presente e fundamental, que só iremos notar sua absoluta importância quando estivermos sem ela, rodeados apenas por essas fotografias genéricas de bancos de imagem free, será como estarmos rodeados por ar poluído e tóxico, ficaremos doentes, cansados e deprimidos. Aí quem sabe compreendamos a falta que fazem as boas fotografias, feitas de forma responsável por bons profissionais, gente que estuda e pesquisa, assim como na medicina, na engenharia, na arquitetura e nas outras poucas profissões que podem rivalizar em importância com a fotografia.
[]’s
Armando Vernaglia Jr
Site - www.vernaglia.com.br
Blog - blog.vernaglia.com.br
Flickr - www.flickr.com/armandovernaglia/
Videos - www.vimeo.com/vernaglia/

PS.: esta é uma versão atualizada do artigo que publiquei na Casa do Galo.

PS2.: Ilustro este texto com uma foto que fiz, em um belo amanhecer na cidade de Mongaguá, litoral sul de São Paulo, e que demonstra o que costumo dizer, sem estudo, treino e técnica apurada, uma foto dessas não acontece.

Mongagua008 - Amanhecer em Mongaguá, litoral sul de São Paulo

Um Pouco de História

Vou aproveitar o espaço do blog para render homenagens a alguns de meus ídolos, gente que inovou, criou e fez mais diferença pela fotografia do que muitas multidões juntas clicando loucamente com suas digitais por aí.

Não vou falar de nomes conhecidos, se você quiser saber de Bresson, Doisneau, Halsman, Man Ray e outros, basta fazer uma simples busca pela internet e achará tudo o que já foi escrito sobre eles, são figuras freqüentes em blogs e sites de fotografia.

Irei selecionar alguns nomes pouco famosos, injustiças cometidas pela história que deixa desaparecer a memória de fotógrafos tão importantes.

Irei começar com o russo Sergey Mikhaylovich Prokudin-Gorsky (1863, Murom, Rússia-1944, Paris, França). Ele é o autor das imagens que ilustram este texto.

Submeti estas imagens a amigos e alunos sem dizer de quem eram ou quando haviam sido feitas, para que todos pudessem opinar sobre o que viam. Uns notaram defeitos técnicos, como falta de foco ou cortes estranhos no enquadramento das cenas. Houve quem apontasse a não utilização de regras de composição, assim como houve quem apontasse as imagens como meros registros de turista, aquelas fotos sem qualidade feitas por quem não entende do assunto.

Também tive opiniões de quem observou o caráter documental das imagens, que as distanciava de intenções artísticas e quem notasse na paleta de cores sutil um charme diferenciado.

Ao serem informados de que estas fotos foram feitas entre 1905 e 1915, quando a fotografia colorida mal existia além de experimentos semelhantes à alquimia, feita com equipamentos arcaicos, que exigiam a produção de três fotografias para uma imagem colorida final, utilizando-se de filtros vermelho, verde e azul para cada uma. E que naquele tempo tudo era revelado, montado e finalizado, sem photoshop, computador, digitais e vejam só, sem o mágico botão “delete”, as opiniões mudaram.

Todos ficaram maravilhados em perceber que um homem visionário, muito antes do seu tempo criou as possibilidades para registrar a realidade do Império Russo em cores, com seus personagens, arquiteturas e paisagens únicas, em um trabalho com mais de 3000 imagens ao todo.

Imaginem conseguir fotos em que os retratados ficassem parados enquanto ele trocava as chapas de filme e filtros coloridos para na soma de três fotografias em preto e branco, obter uma colorida. E ainda ter a maioria focada e composta com o cuidado devido para deixar para a posteridade um registro sem igual em seu tempo.

Assim deixo meu agradecimento a Sergey Mikhaylovich Prokudin-Gorsky, um dos desenvolvedores da fotografia em cores, sem o qual não veríamos o mundo com a mesma graça que vemos hoje.

Para saber mais (em inglês): Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii

A última foto deste artigo é um auto-retrato de Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii.

Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii - 001

Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii - 012

Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii - 004

Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii - 005

Sergei Mikhailovich Prokudin-Gorskii - 016

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Armando Vernaglia Jr
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